
Un diavolo scaccia l'altro.
L’Héritage Doré

CALIBAN LEBLANC: Muito antes de existir um palco, uma guitarra, uma multidão gritando seu nome ou mesmo a ideia de que poderia viver para sempre, Caliban LeBlanc era apenas um homem.Nasceu e cresceu em uma pequena vila no interior da Itália, há milhares de anos, quando as estradas eram de terra, as noites pertenciam às fogueiras e o mundo parecia grande demais para que alguém imaginasse quantas histórias ainda seriam escritas nele.Caliban tinha uma família grande. Irmãos mais velhos, mulheres que cuidavam das crianças, homens que passavam os dias trabalhando e uma rotina simples o bastante para parecer eterna. Ele nunca foi alguém particularmente ambicioso. Queria viver, envelhecer ao lado dos seus e, talvez, um dia ter seus próprios filhos.Até a noite em que os vampiros chegaram.
Ninguém soube exatamente de onde vieram. Alguns diziam que eram criaturas vindas das montanhas; outros acreditavam que eram uma espécie de maldição enviada pelos deuses. Para Caliban, pouco importava.
Eles chegaram durante a madrugada. A vila foi tomada pelo caos antes que alguém pudesse entender o que estava acontecendo. Portas foram arrombadas, casas incendiadas e gritos atravessaram as ruas enquanto as criaturas caçavam os moradores. Caliban percebeu rapidamente que não havia como lutar contra aquilo, então fez a única coisa que conseguiu pensar: mandou as mulheres e as crianças correrem.

Por alguns séculos, acreditou que aquela seria sua existência. Esconder-se, sobreviver e assistir o mundo mudar enquanto ele permanecia exatamente igual. Mas Eliott nunca foi particularmente bom em permanecer parado. Aos poucos, começou a se inserir novamente na sociedade. Descobriu que muitas das coisas que os humanos acreditavam sobre vampiros eram apenas histórias. O sol não o transformava em cinzas.
Alho não o fazia fugir. Cruz não significava absolutamente nada. Sua pele apenas começava a formigar quando ficava quente demais, o que era inconveniente, mas dificilmente fatal.
ㅤㅤ ㅤE, conforme os séculos passavam, Caliban percebeu que a eternidade poderia ser muito mais interessante do que imaginava.
Ele estudou, muito. Passou por universidades em diferentes países, assumindo identidades diferentes conforme os anos avançavam. Formou-se em mais de dez cursos, acumulando conhecimentos que iam muito além daquilo que uma única vida humana permitiria. História. Filosofia. Literatura. Artes. Direito. Música. Psicologia. Arquitetura. Entre tantos outros. Caliban viu impérios nascerem e desaparecerem. Viu guerras começarem. Viu revoluções mudarem sociedades inteiras. Esteve presente em momentos que, séculos depois, seriam descritos em livros. Para os historiadores, eram acontecimentos.
Para Caliban, eram memórias. Mas, dentre todas as coisas que encontrou ao longo dos séculos, nenhuma o conquistou tanto quanto a música. Especialmente o rock. E depois, o punk.
Durante algum tempo, Caliban acreditou que poderia procurá-los. Que talvez ainda pudesse encontrar sua família e explicar o que havia acontecido. Mas bastou perceber o que a fome fazia com seu corpo para entender que aproximar-se deles seria uma sentença de morte. Então ele os observou de longe. Primeiro, conseguiu encontrar alguns deles. Depois, passou a acompanhar suas vidas sem nunca se revelar. Viu casamentos. Viu crianças nascerem. Viu pessoas envelhecerem. E viu mortes. Uma por uma. A cada geração, restava menos da família que conhecera. Eliott permaneceu escondido, observando de longe enquanto o tempo fazia aquilo que ele já não podia fazer: envelhecer. Até que restou apenas um de seus irmãos mais velhos. Eliott o acompanhou durante seus últimos anos sem jamais se aproximar. Quando ele morreu, Caliban finalmente ficou sozinho.

A música tinha algo que Caliban reconhecia imediatamente: liberdade. Não precisava explicar quem era. Não precisava contar de onde vinha. Bastava subir ao palco. Foi assim que nasceu sua carreira.
Caliban LeBlanc tornou-se músico.Sua banda cresceu rapidamente. O som chamou atenção, os shows ficaram maiores e, pouco tempo depois, ele já estava diante de milhares de pessoas. O mundo gritava seu nome. Caliban finalmente descobrira uma forma de viver sem precisar se esconder. Por algum tempo, tudo pareceu perfeito.Até que seus colegas começaram a envelhecer. Primeiro, foram pequenas mudanças. Alguns fios brancos. Rugas discretas. Cansaço depois dos shows. Depois, as diferenças ficaram impossíveis de ignorar. Caliban continuava exatamente igual. O mesmo rosto. A mesma voz. A mesma aparência. Enquanto todos ao seu redor mudavam, ele permanecia congelado no tempo.

Então, no auge da carreira, desapareceu. A aposentadoria surpreendeu os fãs. Muitos acreditaram que fosse uma escolha artística. Outros imaginaram que ele simplesmente havia se cansado. Ninguém sabia a verdade: Caliban estava com medo. Voltou aos estudos. Era mais fácil desaparecer entre livros. Mais fácil ser um acadêmico desconhecido do que uma estrela que o mundo inteiro observava. Durante algum tempo, funcionou.Até uma noite em um bar.
Foi ali que Caliban conheceu um demônio da encruzilhada.
A princípio, pareceu apenas mais uma criatura sobrenatural com quem ele teria de lidar. Mas a conversa tomou outro rumo. O demônio ofereceu um pacto. Caliban não queria riqueza. Não queria poder. Não queria juventude. Muito menos imortalidade. Ele já tinha tudo isso. Queria apenas uma coisa: voltar aos palcos.
Seu pedido era simples. Queria poder assumir a aparência de qualquer pessoa do mundo. Dessa forma, poderia continuar sua carreira sem que ninguém percebesse que o homem que havia desaparecido décadas antes continuava exatamente igual. O demônio aceitou. Caliban assinou o pacto.
Só descobriu o problema depois.
Não poderia assumir qualquer forma; só poderia se transformar em uma única pessoa. Uma única identidade. Um único rosto. O demônio havia encontrado uma maneira de trapacear sem quebrar completamente as regras do acordo. Caliban ficou em silêncio por alguns segundos… Então matou o demônio, sem hesitação. O problema é que matar um demônio da encruzilhada não era exatamente algo que passaria despercebido.Houve retaliação. Caliban passou a ser caçado. Demônios o encontravam. Caçadores sobrenaturais descobriam seus rastros. Outras criaturas ouviam histórias sobre o vampiro que havia enganado um demônio e matado a criatura depois. Ele mudou de cidade. Mudou de país. Mudou de nome. Desapareceu por décadas. Mas nunca conseguiu fazer a perseguição desaparecer completamente.E foi assim que surgiu o outro Caliban.
CALIBAN DEMAURY: A única pessoa em quem LeBlanc poderia se transformar era Caliban Demaury. Demaury era um artista. Amante de todo tipo de arte, tinha uma relação quase obsessiva com pintura, música, literatura e tudo aquilo que pudesse transformar sentimentos em alguma coisa concreta.Ele possuía talento, mas não possuía a mesma fama que LeBlanc havia conquistado. E, de alguma forma, isso acabou sendo perfeito. Caliban podia assumir o corpo de Demaury quando precisava desaparecer. Quando precisava de inspiração.
Quando precisava atravessar algum lugar sem ser reconhecido.
Ou quando algum demônio aparecia novamente procurando pelo vampiro que havia matado um dos seus.Demaury tornou-se seu rosto alternativo; uma segunda vida dentro da primeira.
LeBlanc tinha a experiência. Demaury tinha a sensibilidade. LeBlanc conhecia séculos de história. Demaury enxergava beleza onde ninguém mais prestava atenção. Um era feito de palco, ruído, guitarras e multidões. O outro, de galerias silenciosas, telas inacabadas, livros espalhados e horas observando o mundo através de uma janela. Caliban nunca enxergou os dois como identidades completamente separadas. Eram partes diferentes da mesma existência.Quando precisava ser LeBlanc, era LeBlanc. Quando precisava ser Demaury, tornava-se Demaury. Quando precisava fugir, desaparecia. Quando queria viver, escolhia um rosto. E, depois de tempo suficiente escondido, Eliott decidiu que já era hora de voltar. As pessoas que poderiam reconhecê-lo haviam partido há muito tempo. Os antigos colegas de banda já não estavam ali.
Os fãs que tinham acompanhado sua primeira passagem pelos palcos haviam envelhecido, assim como todos aqueles que poderiam ligar seu rosto ao homem que desaparecera no auge da carreira. Dessa vez, porém, Caliban não voltaria sozinho. Ele reuniu outros vampiros e formou uma nova banda.

Voilà. Todos os integrantes eram vampiros. Para Caliban, aquilo tornava tudo mais simples. Nenhum deles envelheceria. Nenhum precisaria fingir que o tempo estava passando de maneira diferente para cada um. E, acima de tudo, ninguém precisaria abandonar o palco por medo de ser descoberto.Foi em Bordighera, na Itália, uma pequena cidade costeira, que Caliban LeBlanc voltou a fazer história. Longe dos grandes centros e das pessoas que poderiam reconhecer aquele rosto de outra época, Voilà começou a tocar. No início, eram apresentações menores. Depois, os bares ficaram cheios. As pessoas começaram a falar da banda. O som se espalhou pela cidade.E, pouco a pouco, Caliban voltou a sentir aquilo que acreditava ter perdido para sempre. A energia de um palco. As luzes. As guitarras. O barulho da multidão. A sensação de estar exatamente onde deveria estar.Voilà fez sucesso. E Caliban voltou a ser o homem que sempre fora quando estava diante de um microfone: alguém que não queria simplesmente existir pela eternidade, mas aproveitar cada século dela. Ainda assim, Demaury continuava sendo necessário.
Quando precisava de inspiração, assumia seu outro rosto.Quando precisava desaparecer, tornava-se Demaury. Quando algum demônio se aproximava demais, mudava de identidade antes que pudesse ser encontrado. Um completava o outro. Há milhares de anos, Caliban perdeu sua família porque não podia se aproximar deles. Séculos depois, perdeu sua primeira banda porque não podia envelhecer com seus amigos. E, depois de tudo isso, encontrou uma maneira de continuar existindo justamente aprendendo a ser outra pessoa.